[15/04] Palco do Rock – “seja você a mudança que quer ver no mundo”*
PALCO DO
ROCK
Salvador/BA
(13 a
16/02/2010)
Texto: Cleber Silva ACCRBA
Fotos: Cleber Silva ACCRBA e Péricles Mendes
Em sua 16ª edição, o tradicional Festival
Alternativo Palco do Rock levou às areias do Coqueiral de Piatã cerca de 35 mil
pessoas nos quatro dias de evento, entre 13 e 16 de fevereiro, idealizado e
produzido pela Associação Cultural Clube do Rock da Bahia (ACCRBA), com apoio
da prefeitura de Salvador, através da Empresa Salvador Turismo (SALTUR) e
patrocinado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia (FCBA/SECULT). Além dos 34
shows, o público pôde contar com o Espaço Interativo Severino Carvalho Filho,
com atrações diversificadas como zombie walk, workshow do guitarrista Ricardo
Primata, que é um dos maiores guitarristas do Brasil, acústico Portal, stand de
saúde, a Vaca Verde (stand oficial do evento) e Lohak’s Bottons, entre tantas
outras intervenções artísticas. Isso sem contar com o Camping e o 1º Espaço
Infantil em festival do gênero, mostrando pioneirismo mais uma vez.
Tudo começou uma semana antes com palestras
sobre circulação em festivais e produção independente, além de produção de
videoclipes com baixo custo ministradas, respectivamente, por Dimmy Drummer e
Glênio Mesquita. No sábado (13/02), um problema com a energia elétrica no local
prejudicou o início do evento no horário previsto, mas não tirou o brilho da
noite, que começou com o lendário baterista Dom Lula Nascimento acompanhado da
banda Os Attemporais. Na seqüência, a banda Fridha, que foi uma das vencedoras
do Oficina Palco do Rock - seletiva que levou quatro bandas novas ao evento -,
levou a sua peculiaridade sonora para o palco. Já a Vivendo do Ócio tocou para
o grande público do PDR e pode-se notar que muitos já sabiam cantar suas
músicas de cor. Depois, a banda Redoma (RS) se apropriou do palco e fez Cássia,
sua vocalista, desfilar afinação, beleza e performance.
O Cólera (SP) era uma das bandas mais aguardadas da noite. É a maior banda punk
do Brasil e com 30 anos de estrada, diversas turnês no exterior e vários
lançamentos não era de se esperar pouco de Rédson, Val e Pierre. “Pela Paz em Todo Mundo”, “Deixe a
Terra em Paz”, “Adolescente”, entre tantas outros clássicos do Cólera fez muito
fã chorar. Tem discurso, tem punk rock, suor, choro, roda e muito mais. Um show
do Cólera é para ser lembrado e relembrado para sempre. Os caras têm o mesmo (e
talvez mais) vigor que antes, os pulos de Redson não mudaram, a vitalidade de
Val e Pierre impressiona e contagia. Impossível para quem gostar era ficar
parado e entender que esse show teria um fim.
Depois foi a vez do Karne Krua, de Aracaju/SE. É
punk, é hardcore, é protesto, é música extrema, é arte, é história... A banda
traz pro palco característica singulares que envolvem muito mais que só a
própria música. O discurso do vocalista Silvio é sempre muito bem engajado,
principalmente com causas que seus olhos vêem e seu corpo sente com mais
frequência. Tocaram um repertório rápido, mas cheio de vigor com músicas como
“Rumores de Guerra”, “Antiimperialismo” e “Subversores da Ordem”. Já a Três
Puntos, de Vitória da Conquista/BA, também vencedora do Oficina Palco do Rock,
levou ao palco um som mais alternativo que remete às novas influências do rock
mundial mesclado com pop.
A soteropolitana Behavior detonou seu
Death/Thrash Metal de pegadas rápidas e performances individuais de alto nível.
No segundo dia, o início ficou por conta da
Mensageiros do Vento (BA), com seu rock de pagadas oitentistas e bem brasileiras
e logo depois veio a Ignivomus (BA), que parece ter pronúncia complicada, mas é
só acentuar o segundo “i” que está tudo certo (“Ignívomus”). Segundo o guitarrista Kall Santos (Ulo
Selvagem/ex-Sower): “destaque para a
banda Ignivomus que fez um show excelente, mostrando maturidade com pouco tempo
de palco e evoluindo muito a cada apresentação. Essa banda vai dar muito o que
falar”. Depois foi a vez do rock com mais balanço e guitarras suingadas:
Ênio e a Maloca (BA), que são macacos-velhos de festivais e desfilam no palco
canções com arranjos sempre muito bem elaborados. A guitarra, ora suingada, ora
distorcida, dá o tom do som que tem a mescla de várias vertentes para a
produção própria. Nem precisavam tocar Metallica. Suas músicas são sempre muito
bem-vindas e sempre agradam ao bom gosto. “Não me leve a mal”, “Eletro
Entidade” e “Automalocafalante” são alguns destaques do repertório desse
paulista radicado na Bahia que junto à sua banda reverenciam o bom gosto
musical e a excelente produção independente brasileira.
Depois do CPM22, você sabe onde está Wally? - A
próxima banda nem tinha estreado nos palcos do Brasil e já vinha com uma carga
de responsabilidade muito grande. O Astafix (SP) tem nos vocais e na guitarra
Wally, ex-guitarrista do CPM22. Além dele, Ayka (baixo) já é conhecido do
público baiano, pois já tinha se apresentando cinco anos antes no PDR com a
Chipset Zero e Paulo Schroeber, que é guitarrista do Almah. Um time de primeira
divisão completado por Thiago Caurio na bateria. A novidade agradou o público
soteropolitano e para uma estreia de banda, foi acima das expectativas. O som
mudou, Wally agora canta, ou melhor, faz um super gutural nas suas músicas. O
carro-chefe é “Red Streets”, mas ainda têm boas pegadas em “False Eyes”,
“Desordem e Retrocesso” e “End Ever”, que dá nome ao debut da banda. O som da
banda remete à Pantera, Sepultura e Soulfly. Tudo isso serviu para Sandra de
Cássia, presidenta da ACCRBA e vocalista da Ulo Selvagem, afirmar: “Nasce uma grande banda de Metal. Batizamos
por aqui e acredito que reverbere muito sucesso pelo Brasil afora e pelo
exterior”.
Com o palco já quente de tanta atração boa.
Chegou a vez do Hardcore do Terceiro Mundo. Sem citar o nome da banda, eu
poderia parar de escrever por aqui, pois todos sabem que Rodrigo e Cia. só
podem fazer um show potente com energia permutada constantemente. Dead Fish
(ES) é sinônimo de discurso engajado e coro... muito coro. Foi assim em “Sonho
Médio”, “Zero e Um”, “Canção Para Amigos”, “Queda Livre”, entre outras. A
performance de Rodrigo é algo totalmente à parte, sobrando até pro segurança
tendo que carregá-lo nas costas enquanto o mesmo cantava, isso sem contar com o
delírio dos fãs. Isso é Dead Fish!
Pioneiros do clone
drum brasileiro - Dois bateristas? Na mesma bateria? É instrumental? Sim!
Tenho certeza que muitos se perguntaram isso por algum tempo antes de perceber
o poder sonoro dessa grande banda baiana. Dimmmy e Glauco espancam a bateria
sem dó nem piedade... e é uma só pros dois, inclusive o mesmo bumbo! A Vendo
147 trouxe o rock cru para rockers,
mas com recheio tradicional e pesado. Não era instrumental para músico. Era
para o público se esbaldar, mesmo que o discurso que muitos gostam de ouvir não
faça parte da proposta. Tem guitarra poderosa, riff matador e baixo pulsante. A
música "Hell" é bom exemplo, assim como "Satangoz". Para
completar, um medley que contou, entre outros, com Hendrix, Black Sabbath e
Motörhead. Tudo sem voz e muito bem feito!
Logo depois a Desrroche (BA) levou ao palco mais
diversidade, dessa vez com o som Gótico e Industrial de performance detonadora
e em seguida veio a Andranjos, que se divide entre Petrolina/PE e Juazeiro/BA,
com pegadas de Funk Metal. Já a baiana Dimensões Distorcidas, última banda da
noite, trouxe seu som bruto e pesado, mesclando influências da música extrema e
da psicodelia, além de estarem vestidos como propõe o título do novo lançamento:
EP - “Pirata”.
No terceiro dia, a abertura ficou por conta da
banda Buster (BA), mais uma baiana vencedora do Oficina Palco do Rock, que faz
Hardcore/Skate Rock com letras em
inglês. Na sequência veio o cantor Davi Zew (BA) e sua banda.
Pop e Rock com pitadas de Folk. A noite começou a esquentar com os
pernambucanos da Fiddy. São nove malucos em cima do palco fazendo um som pesado
e influenciado por cantigas infantis, circo e vídeo-game. Logo depois veio a
Ulo Selvagem (BA) com seu crossover de guitarras rápidas e vocal rasgado
femin... ops... cadê Sandra? Acometida por uma crise renal e submetida a uma
cirurgia três dias antes, a vocalista não pode subir ao palco com a banda e
cumprir todo o setlist. Cantou “Mundo Selvagem” e deu lugar a RayBass e Gabriel
Amorim para rasgarem seus respectivos gogós. Em canções como “Confissões de um
Mundo Globalizado” e “Metrópole”, percebe-se que a pegada da Ulo tem ficado
mais pesada e mais rápida, unindo Metal, HC e Punk Rock. Sandra voltou nas
últimas três músicas e fez “Skate”, mais conhecida como “Animal”, ao lado de
Rato (ex-Ácaros I.P.A.).
Nesse momento, a multidão headbanger baiana se
aproximou do palco e lotou a arena de shows. O Korzus se preparava para começar
o show e a ansiedade do público era tamanha até que começa a introdução e eles
detonam “Guilty Silence”. A instituição do Metal Brasileiro chamada Korzus
estava no Palco do Rock, de graça, pra uma pá de gente ver. Bonito era ver
Pompeu chamando os headbangers para cantarem juntos “What Are You Looking For”.
Foi uma aula majestosa de Metal. Impressiona a interação total da banda com o
público. Ainda rolou “Correria”, “Catimba”, “Internally”, “Respect”, “Agony”...
ufa! Será que alguém ainda tinha fôlego? Claro! “Guerreiros do Metal” e a nova
“Slavery” também foram executadas, assim como o encerramento com chave-de-ouro
ao tocarem “Raining Blood”, do Slayer. Ainda teve tempo pra um “Wall of Death”.
Salvador agradece ao Korzus pelos minutos de prazer ao seu som.
Em seguida rolou Agrotóxico (SP), banda de
hardcore super conceituada no país. Eles vieram para Salvador “Pelos Escombros”
e desfalcados do guitarrista Arthur, que segundo a banda não foi liberado pelo
patrão e teve que ficar em
São Paulo. Houve problemas no som da banda, principalmente o
do palco. Algumas pessoas me garantiram que do lado de fora o som tava
“pocando” de bom, principalmente os fãs da banda. “Eles Não Vão Parar”, “Fim do
Mundo” e “À Beira do Caos” foram algumas das músicas da banda que me fizeram
ficar atrás da bateria pogando, enquanto Heros Trench, do Korzus, cantava ao
lado do palco. Se os problemas com o som não tivessem acontecido, com certeza,
muito mais de Agrotóxico poderia rolar.
A Elipê (BA), que funciona tão bem no palco que
o show parece durar pouco, aproveitou para divulgar o novo lançamento: o cd
“Indústria da Felicidade Humana”, com suas guitarras bem timbradas, voz
afinadíssima e a inserção de violinos em algumas canções. Depois veio a The
Honkers (BA), que sempre devemos esperar o show mais enérgico e com mais
loucuras de Sputter, seu vocalista. E teve também a Keter, que é uma das bandas
baianas de Metal que mais produziram nos últimos anos.
A noite da saideira começou com a Aluga-se,
banda que divide seu repertório entre músicas prórias e a grandiosa obra de
Raul Seixas. Na sequência, a Chá de Pensamento, que foi mais uma banda
vencedora do 1º Oficina PDR e fez seu rock com influências que vão do pop à
mpb. Depois veio a Etno, de Brasília, com um rock pesado e cheio de groove e
letras muito bem escritas. A Clamus endossou o Metal nordestino de maneira
rápida e muito bem elaborada. Os cearenses estão divulgando o novo disco, “La Frontière” e foi justamente
com músicas desse lançamento que ficou baseado o show, sempre surpreendente
pela performance e pelos três vocalistas “frontmen”. É Thrash/Death de
influências mais modernas aliadas aos clássicos. Logo depois veio a Phantom
Rockers (EUA). Os gringos suaram muito e fizeram um grande show. A banda foi a
responsável por trazer de volta ao Palco do Rock o Psychobilly, tão sumido
desde os tempos de The Dead Billies. Depois a Suprema (SP) deu o ar Metal
novamente ao evento. Com a impossibilidade do baixista Gabriel Conti em
participar do show no PDR, Celso Campos (Templarius) colaborou com a banda e
fez muito bem seu papel. Alguns dos destaques ficam para as músicas “Spyeyes” e
“Powermind”, tendo finalizado com “Two Minutes to Midnight”, do Iron Maiden.
Foi um show curto por conta da ausência de Conti, mas Douglas Jen, Pedro
Nascimento e Helmut Quacken seguraram a onda de uma das maiores revelações do
Metal nacional.
Em seguida a Pastel de Miolos transformou o
Palco do Rock, novamente, em uma roda punk e a Almadória subiu ao palco para
encerrar o Palco do Rock 2010 em clima pós-Punk bastante influenciada pelo Joy
Division.
O 16º Palco do Rock, 1º festival de rock no
carnaval do Brasil, se despediu, mas mostrou muito mais força entre os
festivais brasileiros e tem se tornado a melhor alternativa no carnaval baiano
para quem não está afim de ir atrás dos trios elétricos e gosta de um bom e
velho Rock and Roll. Esse fato marcou Marcello Pompeu, vocalista do Korzus: “Antes o carnaval, para mim, era dias de
horror. Mas, agora o meu carnaval é outro pois existe o Palco do Rock”, disse
para cerca de 10 mil pessoas presentes na terceira noite.