[14/07] ROCK BRIGADE confere “The Big Four” em São Paulo
The Big Four
UCI Shopping Jardim Sul, SP/SP (24/06/10)
Por Fernanda Lira
Mal havia começado a turnê internacional das Big
Four – Anthrax, Megadeth, Slayer e Metallica, as quatro lendas do thrash metal
– e os fãs dos quatro cantos do planeta já ouviam a primeira boa notícia sobre
o evento: pela primeira vez na história, um show seria transmitido
simultaneamente para vários cinemas ao redor do mundo via satélite. Ao todo,
cerca de oitocentas salas de cinema, em trinta e um países na América do Norte,
Europa e América Latina, abriram suas portas para um espetáculo de música
pesada, ou melhor, para O espetáculo de música pesada, afinal, o que se viu foi
uma apresentação digna de infinitos elogios.
Em São Paulo, apenas uma sala inicialmente iria fazer
a transmissão. Porém, a intensa busca por ingressos fez com que uma exibição
extra fosse anunciada: os dois cinemas contemplados foram o do Shopping
Eldorado e do Shopping Jardim Sul. A ROCK BRIGADE compareceu a esta última para
conferir esse momento inédito para o heavy metal.
Antes de o show começar, a sala já se encontrava
parcialmente cheia, e a telona já passava algumas cenas: nenhuma banda no
palco, apenas imagens do público e das áreas internas do festival itinerante
Sonisphere em Sofia, na Bulgária, onde o evento foi gravado. Sim, gravado.
Muitos achavam que a transmissão seria ao vivo, mas não foi. O show foi gravado
um dia antes do exibido, provavelmente para evitar problemas com a transmissão
ao vivo e também considerando os diferentes fusos-horários dos paises
contemplados pela exibição simultânea. Isso pôde ser percebido primeiro pelo
fato de alguns shows terem sido gravados à luz do dia (enquanto no Brasil eram
nove horas, em Sofia seriam quatro da manhã, por isso seria inviável que tudo
ocorresse ao vivo) e também por causa da boa edição do filme.
Com os fãs ainda tímidos em suas cadeiras, a
sessão foi iniciada com o show do Anthrax que já contava com um ponto positivo
logo de cara: a volta de Joey Belladona. Os fãs mais ‘old school’ não
conseguiram se segurar por muito tempo, e logo era possível ver algumas pessoas
ficando em pé, fazendo air guitars e cantando com os punhos rumo à tela, como e
sentissem a emoção de um show de verdade. Mas também, com o set list matador
selecionado pela banda era muito difícil de conter os ânimos: abrindo com
Caught in the Mosh, Got the Time e Madhouse sem parar, os fãs saudosos se
deleitavam, ainda que contendo sua euforia. Depois de Antisocial, cover da
clássica e ótima banda francesa Trust, foi a vez de Indians ( que teve direito
à coreografia de um punhado de pessoas nas primeiras fileiras), na qual foi
feito um medley com Heaven and Hell, do Black Sabbath, em homenagem ao mestre
Ronnie James Dio, que falecera há pouco mais de um mês.
O fim do set ficou a cargo de Metal Thrashing
Mad, do maravilhoso Fistful of Metal e I am the Law, cujo peso ficou
impressionante graças ao surround da sala.
Sem pausa alguma (o que prejudicou os vários
desavisados que deixaram a sala crendo que haveria um ‘descanso’ entre uma
banda e outra), subiu ao palco o Megadeth, para delírio visível da platéia no
cinema, com o hino Holy Wars seguido de Hangar 18, durante a qual vários
adolescentes, provavelmente fanáticos pela banda por causa do jogo Guitar Hero,
bangueavam sem parar. Uma cena bonita de se ver, que prova que o metal continua
a se manter firme de geração a geração.
Quebrando a seqüência do set list que a banda
vinha tocando em sua última turnê, na qual executavam na íntegra o álbum Rust
in Piece, a nova Headcrusher foi tocada debaixo de chuva para quem estava no
Sonisphere. Felizmente, isso não atrapalhou o profissionalismo de Dave Mustaine
que seguiu interpretando In my Darkest Hour, Skin on My Teeth e Hook in Mouth.
Claramente uma das músicas preferidas da
platéia, Sweating Bullets foi tocada e podíamos ver uma fã fazendo os mesmo
trejeitos que Mustaine usava para ‘encenar’ a letra da música. O set foi
brutalmente encerrado com Symphony of Destruction (talvez o ponto alto do show
para quem estava presente no Jardim Sul) e ‘Peace Sells... But who’s Buying?’
emendada com o solo final de Holy Wars, assim como foi feito no show que eles
fizeram no Brasil em abril.
Durante o que parecia ser o fim da tarde em
Sofia, era a vez de uma das bandas mais esperadas da noite: ao aparecero logo do Slayer na tela, vários fãs
começaram a gritar pelo nome do grupo e até a beijar suas camisas da banda. A
emoção era tanta que um fã, na verdade quase um sósia do Kerry King,
guitarrista do quarteto, desceu as escadas, se posicionou em frente à tela do
cinema e gritou para aqueles que ainda estavam sentados nas poltronas: “Vamos
levantar! É Slayer, porra!”. O pedido foi atendido e durante as três primeiras
pedradas, World Painted Blood, War Ensemble e Hate Worldwide, podia-se ver na
sala várias cabeças girando e coros uníssonos cantando as letras dos refrãos.
Após Seasons in the Abyss, cuja execução foi
impressionante (principalmente na parte dedilhada e mais cadenciada do início
da música, que foi perfeita), um dos pontos altos da noite. A clássica Angel of
Death parecia ter despertado de vez os headbangers: muitos desceram a escada
correndo, e formou-se um enorme circle pit com direito a bate cabeça na área
livre à frente da primeira fila. E acreditem, a roda estava tão intensa e
parecida com a de um show de verdade, que era muito mais legal ver os
brasileiros agitando ali embaixo do que os europeus timidamente se ‘espancando’
no filme. A alegria não durou muito. Durante o final, e quase metade da
Mandatory Suicide, o som da sala foi simplesmente cortado. Foi avisado que o
áudio não voltaria até que todos regressassem aos lugares, o que demorou um
pouco e causou certo incômodo nos presentes que se sentiram reprimidos.
Finalizando o set, Chemical Warfare, South of
Heaven e Raining Blood consolidavam o show do Slayer o mais intenso da noite
até então.
Ao invés da entrada na seqüência do Metallica,
uma surpresa agradável. Kerry King, em uma entrevista no backstage, falava
sobre Dio, prestando uma homenagem bem simples, mas muito sincera. O mesmo
fizeram Lars Ulrich, baterista do Metallica, Scott Ian do Anthrax e Dave
Mustaine. Sim, um ao lado do outro trocando idéias entre si sobre suas
experiências com o falecido ícone do metal. Aí estava a primeira cena
inesperada: Lars e Mustaine, antigos arqui-inimigos, pacificamente conversando.
Mas isso não era nada perto do que falaremos mais adiante.
Com um set um pouco parecido com o tocado em sua
turnê pelo Brasil em janeiro, o Metallica subiu ao palco, arrancando urros das
platéias – tanto na Bulgária quanto aqui, no Brasil – com as consagradas
Creeping Death, For Whom the Bells Toll e Harvester of Sorrow, seguidas de um
solo de Kirk Hammet. Logo após, a queridíssima Fade to Black, durante a qual
ficava nítida a emoção dos fãs: letra inteira na ponta da língua de uns, outros
de olhos fechados e até lágrimas podiam ser vistas. Incrível como a música,
principalmente o metal, consegue marcar e mexer tanto com as pessoas. Após uma
única música do cd novo, o set seguiu com as pirotecnias no palco imitando as
explosões em um campo de batalha: era a vez de One, seguida de Master of
Puppets, que, assim como a ‘balada’ citada anteriormente, parecia significar
algo de especial para um grupo de quatro homens, beirando os 50 anos, que se
levantaram e fritavam todos e riffs e solos da música em seus air guitars.
Depois de Nothing Else Matters, na qual James Hetfield, como de costume, exibiu
sua palheta para as câmeras, que focaram ‘The Big Four’ gravado na mesma, era a
vez de até o segurança do cinema participar da festa, cantando a letra INTEIRA
de Enter Sandman como se também estivesse vendo a banda ao vivo.
Agora, sem dúvida alguma, o ponto mais alto e
emocionante da sessão. Após James discursar sobre quão orgulhoso estava por
tocar com outros três grandes nomes do metal, que vêm tocando com muita vida e
garra por trinta anos de estrada, anunciou o cover danoite: Am I Evil, do Diamond Head. A alegria,
a satisfação, o sentimento que todos sentiram ao ver no palco os integrantes de
todas as bandas (exceto pelo trio de cordas do Slayer) portando seus
instrumentos, se abraçando e conversando e tocando ali, unidos por um único
ideal de satisfazer os fãs são indescritíveis.
Após o clímax insuperável, o set foi encerrado
com duas porradas das antigas: Hit the Lights e Seek and Destroy, que marcaram
o fim, me perdoem o palavreado, desse PUTA show.
Não foi apenas um show. Muito menos mais uma
simples sessão de cinema. Foi algo a mais.Eu, particularmente, me senti como se fosse um headbanger dos anos
oitenta assistindo ao US Festival, por exemplo, em um cinema como o Carbono 14,
que foi a segunda casa de grande parte do público rock e metal em 1984 com suas
exibições de shows na telona. Além disso, dá orgulho saber que um estilo tão
criticado por muitos tenha conseguido um espaço tão notável no cenário musical
com um evento inédito desses. O melhor: The Big Four não ficará em apenas uma
exibição. Nos dias 23 e 24 de julho, dezenas de salas espalhadas por diversos
estados do país exibirão o show novamente. Parece que a idéia agradou. E que se
torne comum, para nosso delírio!